A ética profissional é um dos assuntos mais discutidos nas academias do curso de jornalismo. Além de ser disciplina obrigatória, “teoricamente” serve de guia para o desempenho de um bom trabalho. Mas, na verdade ao se colocar no mercado essa realidade é bem mais complexa.
No filme Boa Noite, Boa Sorte, de George Cloney, a ética é o tema central da trama e mostra o que realmente deveria acontecer nas redações. O filme retrata uma luta pela liberdade e ética do jornalismo. De um lado o senador Josefh Mccathy, quer manipular os veículos de comunicação e do outro uma equipe de jornalistas comandada pelo Edward Murrow, que não se deixam manipular pelas ameaças apontadas pelo Senador. A situação se passa no ínicio dos anos 50 nos Estados Unidos.
A firmeza de postura dos jornalistas mostrada no filme é surpreendente, uma vez que os profissionais colocam a ética e o direito da verdade à frente de qualquer outro interesse ou necessidade. Murrow bate de frente com chefes e patrocinadores na defesa pela verdade e daquilo que acredita ser ético. É extraordinária também a adesão entre a equipe que trabalha sempre unida e dando respaldo.
Nas faculdades idealiza-se muito a ética jornalista e que deve ser referencial para a carreira. Contudo, na dia-a-dia esta situação é bem diferente, pois o mercado encontra-se saturado de profissionais e o interesse dos patrocinadores e dos chefes são colocados sempre acima da verdade e da imparcialidade. As equipes não são unidas, já que todos pesam a falta que o serviço pode fazer na luta pela sobrevivência.
Isso pode ser comprovado pela falta de criatividade e imparcialidade da maioria dos jornalistas. Os veículos de comunicação são manipulados descaradamente, como aconteceu no caso do debate Collor e Lula na campanha presidencial e, freqüentemente, em épocas de eleições onde jornais e jornalistas são usados como ferramentas políticas. Nesse cenário onde o poder e o dinheiro ditam as regras a ética infelizmente fica de segundo plano em diante.
Uma das provas mais tristes de que a ética jornalista, atualmente, representa uma ideologia foi um discurso do professor de Ética da USP, Bernardo Kuncinski, que em uma aula inaugural falou da forma que a ética é vista na modernidade. O professor falou da sua luta constante em defender a ética e a sua utilização ao longo dos anos e de como isso foi se perdendo. Segundo Kuncinski, discutia com colegas jornalistas que a ética existia, podia e devia ser utilizada. Contudo, ao levantar as questões éticas com alunos de graduação e pós se viu numa realidade bem diferente, pois acadêmicos e profissionais de grandes e pequenas empresas de comunicação falavam da impossibilidade de ser ético em um mundo em que interesses são mais “valiosos” que a verdade. A partir daí foi se questionando se não estava de fato sendo sonhador.
A gota d’água e a sua maior decepção foi quando um aluno pediu a opinião de como fazer uma matéria sobre uma viagem frustrada da Universidade de São Paulo - USP. Ele não pôde colocar tudo de acordo o que aconteceu para não bater de frente com a direção da USP. Após esse fato o professor Kuncinski viu a necessidade de adaptar a ética à modernidade. Infelizmente, isso é o que de fato tem ocorrido. É lógico que não devemos ser fantoches nas mãos de chefes e de patrocinadores e fazer tudo contrário ao que aprendemos. Devemos trabalhar com equipes de confiantes e unidas, mas temos que ter, além de muita ética, jogo de cintura para não ferir interesses da população, dos veículos, da equipe ou o nosso. Só trabalhando assim é possível exercer nossa profissão com ética.
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